21-02-2026 Sábado
Presidente se reúne com o premiê Narendra Modi, firma acordos em saúde, energia e tecnologia e reforça papel do Sul Global diante das agressões tarifárias de Donald Trump
Em visita de Estado à Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu neste sábado (21) a reforma do Conselho de Segurança da ONU, o fortalecimento do multilateralismo e a ampliação da cooperação estratégica entre Brasil e Índia.
Ao lado do primeiro-ministro Narendra Modi, Lula afirmou que o cenário internacional marcado por conflitos, disputas comerciais e uso de tarifas como instrumento de pressão exige maior articulação entre países do Sul Global.
Segundo o presidente, a governança internacional “não reflete mais a correlação de forças do mundo atual” e precisa ser reformulada para ganhar legitimidade e capacidade de ação.
“O mundo não pode continuar refém de estruturas criadas no século passado, incapazes de responder aos conflitos que vemos hoje”, disse Lula.
O presidente retomou a defesa da ampliação do Conselho de Segurança da ONU e lembrou a articulação histórica entre países que reivindicam maior representatividade no órgão.
“É importante lembrar à imprensa indiana e brasileira que, há mais de 20 anos, Brasil, Índia, Alemanha e Japão construíram um grupo chamado G4 defendendo a ampliação do Conselho de Segurança da ONU, coisa que não aconteceu até agora, mas certamente vai acontecer logo”, afirmou o presidente.
A agenda ocorre num contexto de disputas comerciais acendidas pela retomada de tarifas pelos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump.
Sem mencionar diretamente o presidente norte-americano, Lula afirmou que Brasil e Índia compartilham a visão de que o unilateralismo “fragiliza cadeias produtivas, encarece alimentos e compromete o desenvolvimento”.
Lula destacou que a cooperação entre Brasil e Índia deve ser vista como resposta concreta a esse cenário.
Em 2025, o fluxo comercial entre os dois países superou US$15 bilhões, crescimento de 25% em relação ao ano anterior. A meta acordada pelos governos é alcançar US$20 bilhões até 2030, patamar que o presidente brasileiro sugeriu rever para cima.
“Estamos avançando tão rápido que deveríamos pensar em chegar a US$30 bilhões de intercâmbio”, afirmou. Para Lula, a ampliação do comércio bilateral passa pela diversificação das parcerias internacionais e pelo fortalecimento de acordos entre blocos do Sul Global.
Nesse contexto, o presidente defendeu a ampliação do Acordo de Comércio Preferencial entre a Índia e o Mercosul, em vigor desde 2009, como etapa para um eventual acordo de livre-comércio. “Dois mercados tão importantes precisam de um arcabouço mais abrangente e ambicioso”, disse.
Durante a visita, Brasil e Índia assinaram oito atos de cooperação, que abrangem áreas consideradas estratégicas pelos dois governos. Entre os acordos estão entendimentos nas áreas de minerais críticos e terras raras, saúde, energia, transformação digital, micro e pequenas empresas, setor postal, mineração e certificação de origem comercial.
No campo da energia e dos minerais críticos, Lula afirmou que a cooperação busca garantir autonomia produtiva diante da concentração global dessas cadeias. “Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje”, disse.
Na área da saúde, os atos preveem cooperação regulatória e industrial, com foco na produção de medicamentos, vacinas e insumos estratégicos.
Segundo Lula, Brasil e Índia atuam “há décadas lado a lado” na defesa do acesso a medicamentos genéricos e da soberania sanitária, especialmente no âmbito da Organização Mundial da Saúde.
Também foram firmados entendimentos em transformação digital e tecnologias emergentes, incluindo inteligência artificial. Lula afirmou que a parceria digital com a Índia é a primeira desse tipo assinada pelo Brasil e tem como objetivo colocar a tecnologia “a serviço do desenvolvimento inclusivo”.
Paz e governança internacional
Lula voltou a defender soluções diplomáticas para conflitos internacionais e afirmou que não há desenvolvimento sustentável em um mundo marcado por guerras.
O presidente reiterou apoio aos esforços pelo fim da guerra na Ucrânia e defendeu medidas urgentes para aliviar o sofrimento da população palestina.
“O terrorismo não pode ser associado a nenhuma religião ou nacionalidade, nem usado como pretexto para ações à margem do direito internacional”, afirmou, ao comentar ataques recentes na Caxemira.
A referência foi feita no contexto da situação na Caxemira, região que voltou ao centro das atenções após episódios recentes de violência entre Índia e Paquistão.
Segundo Lula, Brasil e Índia têm papel central na construção de uma governança global mais equilibrada, tanto na ONU quanto em fóruns como o G20 e os Brics. “Esse trânsito de presidências entre nossos países fortalece a voz do Sul Global e amplia nossa capacidade de influenciar decisões globais”, disse.
Agenda de Estado
Antes da assinatura dos atos, Lula participou de cerimônia oficial de boas-vindas no Palácio Presidencial indiano e prestou homenagem a Mahatma Gandhi no memorial Raj Ghat.
O presidente também se reuniu com a presidenta da Índia, Droupadi Murmu, e participou do Fórum Empresarial Brasil–Índia, que reuniu cerca de 600 representantes do setor privado dos dois países.
No encerramento do fórum, Lula afirmou que a aproximação entre Brasil e Índia busca romper a lógica histórica de dependência em relação às grandes potências econômicas.
“Durante muito tempo, fomos ensinados a olhar apenas para a Europa e os Estados Unidos. Agora resolvemos olhar uns para os outros”, disse.
Vermelho