13-02-2026 Sexta-feira
Nexus e Ipea desarmam mitos patronais: com impacto de custo inferior a 1%, dados fortalecem luta pelo fim da escala 6×1
O debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil ganhou, nesta semana, contornos definitivos que isolam a narrativa do “terrorismo econômico” propagada por setores do empresariado. A divulgação de uma nova pesquisa da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, somada a uma nota técnica de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), oferece o lastro social e econômico necessário para que as centrais sindicais intensifiquem a pressão sobre o Congresso Nacional.
O levantamento da Nexus expõe uma realidade incontornável: 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1, desde que a medida não venha acompanhada de redução salarial. O dado reflete a maturidade da classe trabalhadora, que compreende a necessidade de mais tempo para o convívio familiar e para o lazer, mas não pode abrir mão da renda.
O apoio à ideia de que todo trabalhador deve ter, no mínimo, dois dias de descanso semanal atinge a expressiva marca de 84%. Entre os eleitores de Lula, 71% apoiam o fim da escala 6×1, contra 15% que se opõem. Até mesmo entre eleitores de Bolsonaro, a proposta encontra maioria: 53% são favoráveis e 32% contrários.
De acordo com a pesquisa, 63% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1 de forma genérica, sem menção inicial a impactos salariais, enquanto 22% se posicionam contra essa mudança. Se houver corte no salário, o apoio à proposta cai para 40% dos entrevistados e apenas 28% mantêm o apoio incondicional.
Quanto ao conhecimento e percepção da proposta, 62% dos entrevistados já ouviram falar do fim da escala 6×1, dos quais 12% conhecem bem o tema e 50% têm um conhecimento superficial. Por outro lado, 35% nunca ouviram falar sobre o assunto, e apenas 12% entendem bem o que o projeto implica. O apoio à medida cresce conforme o nível de conhecimento: atinge 71% entre aqueles que conhecem bem, 69% entre os que conhecem pouco e 55% entre os que nunca ouviram falar. Finalmente, 52% acreditam que a proposta será aprovada pelo Congresso Nacional, contra 35% que pensam o contrário, com 13% sem opinião formada.
Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, pontua que a disputa legislativa reside justamente na manutenção dos rendimentos. “Não dá para trabalhar seis dias e folgar um só”, sintetiza Tokarski, acrescentando que, em um país de renda média baixa, a equação financeira é determinante. “Quem não quer ter folga a mais? Todo mundo quer. Agora, quando a gente coloca que você vai trabalhar um dia menos, mas vai ganhar menos, o cara não quer porque tem conta para pagar”, avalia o pesquisador, jogando luz sobre a armadilha que o patronato tenta impor ao condicionar a liberdade de tempo à perda de renda.
A ciência contra o alarmismo
Enquanto a vontade popular se revela cristalina, o Ipea tratou de desmontar os argumentos técnicos utilizados pelo lobby empresarial para travar a pauta. Em nota técnica divulgada nesta semana, o instituto revelou que a redução da jornada para 40 horas semanais teria um impacto inferior a 1% nos custos operacionais das grandes empresas de comércio e indústria. O estudo compara o custo da medida a reajustes históricos do salário mínimo, que foram absorvidos pelo mercado sem gerar desemprego, o que desmente a tese mecânica de que a redução de jornada implicaria queda no PIB.
Os dados do Ipea mostram que a jornada de 44 horas penaliza justamente os trabalhadores com menor escolaridade e menores salários, perpetuando um ciclo de desigualdade. A análise técnica reforça a posição de que o aumento da produtividade e a reorganização das escalas são caminhos naturais para absorver a mudança, tal como ocorreu na transição da Constituição de 1988, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas sob protestos idênticos do capital.
Mobilização é a chave para a vitória
Diante deste cenário favorável, em que a opinião pública e os dados econômicos convergem, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) aponta o caminho da mobilização como única via para transformar estatísticas em lei. Para Adilson Araújo, presidente da CTB, o fim da escala 6×1 é uma bandeira histórica que enfrenta oposição secular do patronato, cujas previsões catastróficas “não têm base na realidade nem fundamento na ciência”.
A estratégia agora é utilizar os dados do Ipea e o apoio aferido pela Nexus para pressionar politicamente os parlamentares que ainda hesitam em aprovar a PEC. Adilson reforça que, embora o apelo eleitoral e o apoio do governo Lula favoreçam a pauta, subestimar o poder de influência do capital no Congresso seria um erro. A vitória depende, portanto, de uma ampla mobilização das bases sindicais para garantir que a modernização das relações de trabalho, com ganho de saúde e produtividade, não seja mais uma vez adiada pelos interesses do lucro.
A pesquisa Nexus ouviu 2.021 pessoas com 16 anos ou mais em 27 unidades da Federação, entre 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.
Vermelho
