06-02-2026 Sexta-feira
Dados do MJSP revelam que ações policiais matam 18 brasileiros por dia; alta de 4,5% em 2025 acende alerta sobre uso político da violência policial
O Brasil encerrou o ano de 2025 com um paradoxo estatístico que desafia gestores públicos e especialistas em segurança. De acordo com o levantamento consolidado pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) na terça-feira (3), a letalidade policial interrompeu a trajetória de queda e registrou uma alta de 4,5%. Foram 6.519 vítimas de intervenções policiais, consolidando uma média de 18 mortes diárias. Os números são originados obrigatoriamente nos estados, responsáveis pela Segurança Pública. Por isso, são as Secretarias de Segurança Pública estaduais que alimentam o sistema Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública).
Para o professor Ignacio Cano, pesquisador e especialista em segurança pública, a publicidade desses números representa um marco institucional. “Em primeiro lugar, é positivo que finalmente o Ministério da Justiça tenha dados oficiais sobre a letalidade policial. Durante muitos anos, esses dados eram elaborados exclusivamente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública porque o governo federal resistia a correr o risco político de divulgar dados oficiais”, pondera.
O Mapa da Letalidade e a Vontade Política
O fenômeno não é isolado geograficamente, mas revela nuances políticas e regionais. As regiões Norte e Nordeste apresentaram as altas percentuais mais alarmantes. Rondônia viu o número de mortes saltar de 8 para 47 (488%), enquanto o Maranhão registrou alta de 87%.
No topo da lista em números absolutos, a Bahia mantém a liderança nacional com 1.569 óbitos. Entretanto, o professor Cano destaca que o crescimento em estados como São Paulo (835 mortes) e Rio de Janeiro (798) obedece a uma lógica específica. “Estão em alta tanto o Rio quanto São Paulo, que fazem parte de um projeto político que tem na letalidade policial um de seus componentes”, afirma o pesquisador, referindo-se à ideologia que valida o confronto como ferramenta de propaganda política.
Cano também alerta para o olhar proporcional: embora estados menores tenham números absolutos baixos, a incidência por habitante é crítica. “É preciso ter cuidado com a letalidade em estados que têm menos população, mas que proporcionalmente são exemplos do uso abusivo da força, como é o caso do Amapá”, explica. O Amapá registrou em 2025 uma taxa de 17,11 mortes por 100 mil habitantes, a maior do país.
Transparência e Obrigações Internacionais
A divulgação dos dados pelo Sinesp atende também a pressões externas. Cano recorda que a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre o caso “Nova Brasília” impõe ao Estado brasileiro a obrigação de publicar um relatório anual sobre letalidade policial. “Enfim, agora pelo menos temos algum dado oficial. Mas o Estado brasileiro tem a obrigação de elaborar e publicar esse relatório anual detalhado”, reforça.
O caso “Nova Brasília” ocorreu no Complexo do Alemão (RJ), entre 1994 e 1995, quando duas incursões policiais resultaram na morte de 26 homens e na violência sexual contra três mulheres. As investigações internas foram marcadas por omissões e ninguém foi punido por décadas.
O recorte racial e a vulnerabilidade
A letalidade policial no Brasil continua a ter cor e endereço. Análises da Human Rights Watch indicam que a população negra representa cerca de 86% das vítimas. Em 2025, um cidadão negro teve 3,5 vezes mais chances de ser morto pela polícia do que um branco, evidenciando que o racismo estrutural permanece como um filtro na aplicação da força letal.
A cultura da violência também se manifesta no tecido social através do gênero: o Brasil atingiu o recorde de 1.470 feminicídios em 2025. Embora as dinâmicas e as motivações sejam distintas, especialistas apontam que a ‘lógica da eliminação’ e o racismo estrutural unem os indicadores, e colocam a mulher negra no centro da vulnerabilidade, seja como alvo direto do feminicídio, seja como a principal atingida pelas consequências da violência policial nas periferias.
Proteção e saúde mental dos agentes
Em contrapartida ao aumento das mortes de civis, os indicadores de vitimização policial apresentaram melhora. As mortes de agentes de segurança caíram 9,4% (183 casos), e os suicídios entre policiais recuaram 5,4%. Entretanto, os números ainda são preocupantes. Um policial tira a própria vida a cada três dias no país, reflexo da exposição contínua a um modelo de policiamento baseado no estresse do combate.
Para analistas de segurança pública, a manutenção desses índices revela uma política de segurança que prioriza o confronto em detrimento da inteligência. O desafio para 2026 será equilibrar a queda dos indicadores de criminalidade comum — que caíram entre 10% e 19% em crimes patrimoniais — sem que o Estado se torne o principal agente de violência nas periferias brasileiras. Como resume o professor Cano, a transparência atual é o primeiro passo para uma fiscalização que de fato interrompa o ciclo de mortes.
Vermelho
