29-01-2026Quinta-feira
No Fórum Econômico Internacional, presidente condena tentativas hegemônicas e uso da força, sem citar Trump, e defende superação de divergências ideológicas
Os desafios geopolíticos, econômicos e tecnológicos do mundo atuais apontam para a necessidade de um novo modelo de integração da América Latina e Caribe. Ao discursar no Fórum Econômico Internacional da América Latina, no Panamá, nesta quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a “integração possível” dos países do bloco: “Guiados pelo pragmatismo, podemos superar divergências ideológicas e construir parcerias sólidas e positivas dentro e fora da região”.
Lula fez várias menções às ações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas não o citou nominalmente. A crítica maior do presidente foi sobre o uso da força, referência ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela, explicitando a posição delicada da América Latina neste contexto. “A proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é outra referência inescapável, seja pela sua presença ou pelo seu distanciamento, sobretudo num contexto de recrudescimento de tentativas hegemônicas”, afirmou o presidente. O uso da força, sentenciou, “jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem este hemisfério que é de todos nós”.
A realização do encontro no Panamá, disse Lula, teve “simbolismo especial”. O petista investiu no ponto de união entre “Atlântico e Pacífico”, mas, mais uma vez, nas entrelinhas esteve a atuação do presidente dos EUA, que já sinalizou sua intenção de retomar o controle do Canal do Panamá.
“A história mostra que o uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem este hemisfério que é de todos nós. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos específicos gestos anacrônicos e retrocessos históricos.”
Em contraponto à gestão bélica e ameaçadora de Trump, Lula relembrou momentos históricos “em que os Estados Unidos foram um parceiro em prol dos nossos interesses de desenvolvimento”. A referência feita à gestão de Franklin Roosevelt que, segundo o presidente brasileiro, “implementou uma política de boa ambiente que tinha como objetivo substituir a intervenção militar pela diplomacia em sua política externa para a América Latina e Caribe”.
Extremismo político, manipulação da informação
O presidente considera que o mundo vive o “maior retrocesso em matéria de integração”. Disputas ideológicas e conflitos são impostas, informadas. “As ameaças do extremismo político e da manipulação da informação se incorporam ao nosso cotidiano.”
O modelo de parcerias internacionais está em colapso, reconheceu o presidente, com cúpulas que se tornam rituais vazios, sem a presença dos principais líderes globais. Lula mencionou que o crime organizado avançou de forma transnacional e não há ação robusta para deter o aquecimento global. Diante dos fatos, o presidente sugere um “modelo de regionalismo possível para a América Latina e o Caribe”.
A União Europeia, informou Lula, é uma referência positiva, porém não aplicável para a América Latina, disse. “O peso das identidades nacionais torna-se inviável a curto prazo qualquer projeto de envergadura semelhante ao europeu.”
Trunfos inexplorados
A integração poderia se dar, sugeriu Lula, a partir da “mobilização dos trunfos inexplorados pela região para promover sua inserção competitiva na ordem global”. “Dispomos de ativos de ordem política e econômica que podem conferir materialidade ao impulso integracionista”, acrescentou. Os ativos, na visão de Lula, são energia, produção de alimentos, água, biodiversidade, minerais críticos e terras raras. Além disso, ele apontou que não há graves conflitos religiosos ou culturais na região e que a maioria dos governos vive sob democracias.
“Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade. E as únicas armas a empregar são os investimentos, a transferência de tecnologia e o comércio justo e equilibrado”, defendeu o presidente Lula.
Recuperar a confiança na integração é tarefa árdua, acompanhada de Lula, “mas necessária”. “Dispomos de credenciais econômicas, geográficas, demográficas, políticas e culturais específicas para aspirar a uma presença relevante no contexto mundial. Necessitamos de lideranças comprometidas com mecanismos institucionais que articulem de forma equilibrada os diferentes interesses nacionais de nossa região”, pregou.
