28-01-2026Quarta-feira
O presidente pregou a integração dos países da região como caminho para o progresso e soberania das nações
Em um discurso focado na defesa do multilateralismo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu o Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe nesta quarta-feira (28) apontando os impactos das pressões hegemônicas na região.
Lula traçou um diagnóstico do atual cenário latino-americano e alertou que a fragmentação do bloco regional serve aos interesses de potências externas e aprofunda retrocessos históricos. Diante de líderes convocados pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe e pelo governo panamenho, o presidente não apenas descreveu a paralisia das instituições multilaterais, mas identificou a postura agressiva de grandes nações e as divisões ideológicas como causas centrais da desintegração continental.
De Simón Bolívar à atual paralisia
Lula iniciou o discurso resgatando o simbolismo do Congresso do Panamá de 1826, idealizado por Simón Bolívar para ser o berço da união e da independência regional. No entanto, pontuou que o continente vive hoje o “maior retrocesso em matéria de integração”, citando a extinção da Unasul e o esvaziamento da CELAC.
Essa desarticulação, para Lula, cobrou um preço alto que é a incapacidade das nações de oferecer respostas conjuntas a dramas como a pandemia de Covid-19 e o avanço do crime transnacional. “Seguir divididos nos torna todos mais frágeis”, alertou.
As investidas do “unilateralismo e do neocolonialismo”
Lula tratou das intervenções estrangeiras de forma direta. Numa clara alusão à política externa dos Estados Unidos, apontou o unilateralismo como uma ameaça real para a região. “A divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos”, declarou. A fala remete ao histórico de sanções e crises promovidas ou estimuladas por Washington na Venezuela e no Haiti.
O presidente brasileiro defendeu a neutralidade estratégica do Canal do Panamá e rejeitou os modelos pan-americanistas que considera obsoletos, por funcionarem como correias de transmissão de interesses do Norte Global. Em substituição, propôs uma integração “pragmática e plural”, capaz de blindar a região de pressões militares e econômicas unilaterais.
O resgate de Roosevelt contra o ódio digital
Em um movimento diplomático, Lula buscou na história dos EUA um contraponto às investidas de Donald Trump ao citar a política de “boa vizinhança” de Franklin Roosevelt. O presidente resgatou o discurso das “quatro liberdades” (de expressão, de culto, de viver sem miséria e de viver sem medo), atribuído a Roosevelt, como caminho para fortalecer a democracia e enfrentar o discurso de ódio. Lula destacou que a manipulação por algoritmos representa uma nova forma de cerceamento da soberania e da liberdade na América Latina.
“A única guerra que precisamos travar é contra a fome e desigualdade”
Lula encerrou reafirmando que o Brasil se mantém como uma zona de paz regida pelo direito internacional, recusando-se a ser arrastado para conflitos de hegemonia globais. “Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar é contra a fome e a desigualdade. Nossas armas devem ser o comércio justo e a tecnologia a serviço do povo”, concluiu.
