Na Indonésia, Lula firma parcerias, critica protecionismo e propõe comércio sem dólar

23-10-2025 Quinta-feira

Em discurso em Jacarta, presidente defendeu soberania econômica, criticou o dólar como dependência e cobrou multilateralismo às vésperas da reunião com Donald Trump

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a visita de Estado à Indonésia, nesta quinta-feira (23), para reforçar o discurso em defesa da soberania econômica e da integração entre países do Sul Global. 

Em Jacarta, ele criticou o avanço do protecionismo internacional e propôs o uso de moedas nacionais nas transações comerciais, como alternativa à dependência do dólar norte-americano. 

O discurso ocorre às vésperas de seu primeiro encontro presencial com Donald Trump, previsto para domingo (26), durante a Cúpula da Asean, na Malásia.

“Indonésia e Brasil não querem uma segunda Guerra Fria. Nós queremos comércio livre”, declarou Lula diante de empresários e ministros dos dois países. “Tanto a Indonésia quanto o Brasil têm interesse em discutir a possibilidade de comercialização entre nós dois ser com as nossas moedas”, completou. 

As falas foram interpretadas como recado direto a Washington, num momento em que o governo dos Estados Unidos endurece barreiras comerciais contra exportações brasileiras.

O presidente recordou que o século 21 “exige coragem para mudar a forma de agir comercialmente” e advertiu que “nenhum país deve se tornar dependente de ninguém”. O discurso foi acompanhado por mais de cem empresários brasileiros e por representantes do governo indonésio, entre eles o presidente Prabowo Subianto. 

Segundo Lula, “a decisão brasileira de reforçar nossa cooperação com a Indonésia e com o Sudeste Asiático não poderia ser mais acertada”.

Durante a cerimônia no Palácio Merdeka, Lula afirmou que o Brasil pretende transformar a parceria com a Indonésia em uma das mais estratégicas do Sul Global. 

“Há seis palavras que não são mágicas, mas necessárias para convencer investidores: estabilidade fiscal, jurídica, política, econômica, social e previsibilidade. Isso o Brasil faz questão de oferecer a todo e qualquer investidor”, disse.

Novo fôlego

A visita oficial consolidou a assinatura de uma série de memorandos de entendimento nas áreas de agricultura, energia, mineração, ciência e tecnologia, estatística e promoção comercial. 

Participaram das cerimônias os ministros Alexandre Silveira, Luciana Santos e Carlos Fávaro, além do presidente do IBGE, Marcio Pochmann, e do presidente da ApexBrasil, Jorge Viana. O objetivo central é ampliar o comércio bilateral, que somou US$6,3 bilhões em 2024, mas que, segundo Lula, ainda é “incompatível com o grau de ambição das nossas economias”.

O Fórum Empresarial Brasil–Indonésia reuniu mais de cem representantes de empresas como Embraer, Petrobras, Vale, WEG, JBS, Marfrig, BRF e Minerva. 

“Não é possível que duas nações com meio bilhão de pessoas tenham apenas US$ 7 bilhões de comércio exterior. É pouco”, afirmou Jorge Viana. “Os investimentos diretos somam apenas US$ 2 bilhões, o que é pequeno diante de economias que juntas superam US$ 4 trilhões.”

Viana destacou que a ApexBrasil e a agência indonésia Carim firmaram um plano de trabalho para encontros regulares entre empresários dos dois países. 

Segundo ele, o Brasil oferece hoje “um ambiente de estabilidade e previsibilidade raro no mundo, com inflação sob controle, pleno emprego e matriz energética sustentável”. Lula respondeu à saudação afirmando que o país vive uma fase “de reconstrução e confiança” e que a estabilidade será “um ativo permanente da política brasileira”.

O presidente da Apex ainda exaltou o simbolismo ambiental da parceria. “Brasil e Indonésia reúnem 40% das florestas tropicais do mundo. Isso é um ativo econômico para enfrentar a crise climática”, disse. “O senhor está semeando uma nova fase promissora para a relação entre nossos dois países. Essa é a boa semeadura que começa aqui na Indonésia”, disse.

Soberania, biocombustíveis e nova agenda ambiental

Durante o fórum, Lula insistiu que o Brasil e a Indonésia devem assumir protagonismo na transição energética e na economia verde. “Como dois dos maiores produtores de bioenergia do mundo, podemos criar juntos um mercado global de biocombustíveis. O etanol é uma alternativa viável e imediatamente disponível”, afirmou.

O presidente detalhou a recuperação de 40 milhões de hectares de terras degradadas e destacou que o país pode “expandir a produção de biocombustíveis sem derrubar uma única árvore”. 

O tema se conecta à realização da COP30 em Belém, no Pará, onde o Brasil pretende apresentar sua política de transição justa. “Não há preservação da natureza sem cuidar das pessoas”, disse Lula.

Um dos anúncios mais aplaudidos foi o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), criado com investimento inicial de US$ 1 bilhão. 

“Uma parte do lucro será transformada em financiamento para os países que mantêm suas florestas em pé. Ninguém mais vai precisar pedir esmola para preservar a floresta”, afirmou. O fundo beneficiará, entre outros, países amazônicos, a Indonésia e o Congo.

O tema ambiental também uniu empresários e representantes dos dois governos. Viana lembrou que o Brasil é “parte da solução, não do problema”, e que a integração com a Indonésia simboliza “a união das duas maiores potências tropicais do planeta” em torno da sustentabilidade. 

Lula encerrou o bloco destacando que o Brasil quer “gerar emprego de qualidade e reduzir desigualdades sem abrir mão da preservação”.

Mineração, agregação de valor e integração regional

Em tom estratégico, Lula defendeu a criação do Conselho Nacional de Minerais Críticos, vinculado à Presidência da República, e elogiou a política indonésia de agregar valor às exportações de minério. 

“A experiência da Indonésia de incentivar o processamento interno é um exemplo importante de como gerar emprego e atrair investimento sem repetir o papel de mero exportador de commodities”, disse.

O presidente afirmou que o Brasil possui 10% das reservas mundiais de minerais críticos e que o país não abrirá mão de sua soberania sobre esses recursos. 

“Queremos uma parceria equilibrada e mutuamente benéfica”, reforçou. No setor de defesa, Lula destacou o potencial das aeronaves Super Tucano e o espaço para cooperação tecnológica. “A Força Aérea da Indonésia conhece bem a capacidade da indústria brasileira.”

A agenda econômica inclui ainda a conclusão, até dezembro, do Acordo de Comércio Preferencial Mercosul–Indonésia. Lula descreveu o bloco do Sudeste Asiático como “a quarta economia do mundo” e defendeu a aproximação entre o Mercosul e a ASEAN. “Ampliar nossa integração é uma escolha que se provou acertada”, afirmou.

O presidente encerrou o discurso reiterando a defesa do multilateralismo e do BRICS como “plataforma de defesa dos interesses do Sul Global”. “O setor privado, com parcerias e projetos conjuntos, transformará nossa afinidade diplomática em prosperidade compartilhada”, concluiu, sob aplausos.

Vermelho

Deixe um comentário