Lula reage a Trump no JN: “Brasil não aceita desaforo nem intromissão”

11-07-2025 Sexta-feira

Em entrevista ao Jornal Nacional, presidente rebateu ataque de Trump ao STF, defendeu retaliação comercial e disse que empresários devem estar ao lado do Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou duramente, na noite desta quinta-feira (10), a carta divulgada por Donald Trump com ameaças ao Brasil e ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF). 

Durante entrevista ao Jornal Nacional, Lula afirmou que o país não aceitará pressões externas nem subordinação a interesses estrangeiros. 

“O que o Brasil não aceita é intromissão nas coisas do país. Ele tem o direito de tomar decisão no país dele, mas com base na verdade”, declarou. 

Mais cedo, Lula também havia concedido entrevista à TV Record, na qual classificou a carta como ofensiva à soberania nacional e à democracia brasileira. “Se o presidente Trump conhecesse um pouquinho do Brasil, ele teria mais respeito”, protestou.

Lula também ironizou o meio pelo qual Trump divulgou a carta. “Achei que era um material apócrifo. Nunca vi um presidente mandar correspondência para outro via rede social”, afirmou, em referência à publicação feita no Truth Social.

O presidente dos Estados Unidos justificou a elevação da tarifa de importação para 50% sobre produtos brasileiros alegando um suposto déficit comercial dos EUA com o Brasil. Lula rebateu a acusação e disse que Trump está mal informado: “Os EUA são superavitários na balança com o Brasil”.

Dados contradizem justificativa econômica dos EUA e expõem superávit americano

A fala de Lula sobre a balança comercial responde diretamente à alegação de Trump de que os Estados Unidos estariam sendo prejudicados nas trocas com o Brasil. Os dados, no entanto, contradizem essa versão.

Segundo o ministério da Fazenda, apenas nos seis primeiros meses de 2025, o Brasil exportou US$ 20 bilhões (cerca de R$ 110 bilhões) e importou US$ 21,7 bilhões (R$ 119 bilhões), acumulando um déficit de US$ 1,6 bilhão. 

A vantagem norte-americana é histórica: desde 2009, a balança comercial bilateral favorece os EUA, que já acumularam superávit de mais de US$ 400 bilhões (R$ 2,2 trilhões).

Na entrevista à Record, Lula foi além. “Se você pegar o ano passado, nós exportamos 40 bilhões [de dólares] e importamos 47 [de dólares], foi um déficit de 7 bilhões [de dólares]. E nos últimos 15 anos, o déficit acumulado é de 410 bilhões de dólares”, explicou

O ministro Fernando Haddad também classificou a tarifa como injustificável do ponto de vista econômico. “É superávit. Então, quem poderia estar pensando em proteção era o Brasil”, afirmou.

STF, golpe e julgamento de Bolsonaro: “Se for culpado, será preso”

Trump também usou a carta para criticar o julgamento de Jair Bolsonaro, chamando o processo de “caça às bruxas”. Lula respondeu dizendo que o ex-presidente brasileiro será julgado conforme a lei.

“O que Trump precisa saber é que, se ele tivesse feito aqui o que fez lá no Capitólio, também estaria sendo julgado. Se for culpado, seria preso. Como qualquer cidadão. É assim que a Justiça funciona”, disse o presidente.

Lula afirmou ainda que nunca interferiu nas decisões do Judiciário norte-americano e que espera reciprocidade. “Eles devem respeitar a nossa Justiça, como eu respeito a deles.”

Questionado sobre a gravidade das investigações em curso, o presidente lembrou as denúncias de militares que mencionaram planos de assassinato e reafirmou que o julgamento será técnico. 

“Não é a pessoa do Bolsonaro que está sendo julgada, são os autos do processo. Se ele tiver razão, será absolvido. Se não tiver, será condenado”, disse.

“Reciprocidade já a partir de 1º de agosto”, diz Lula

Lula anunciou que o governo brasileiro utilizará a Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, caso a tarifa anunciada por Trump entre em vigor. “Se não houver solução, vamos aplicar a reciprocidade já a partir de 1º de agosto”, afirmou.

O presidente também sinalizou a criação de um comitê com empresários para elaborar uma resposta coordenada. “Espero que estejam ao lado do governo. Porque, se algum empresário acha que tem que ceder a tudo o que o presidente do outro país quer, sinceramente, esse cidadão não tem nenhum orgulho de ser brasileiro”, provocou.

Segundo interlocutores do Planalto, a retaliação poderá ocorrer de forma cruzada, afetando setores como medicamentos, audiovisual e propriedade intelectual — e evitando impacto direto sobre insumos essenciais à economia.

BRICS, G7 e independência do Sul Global

Lula também respondeu à hipótese levantada pelo presidente norte-americano de que a aproximação do Brasil com os BRICS teria motivado a retaliação de Trump. O presidente refutou essa visão e disse que não há motivo para hostilidade.

“Nós nunca ficamos nervosos com a participação dos EUA no G7. Cada país faz o que quer”, disse. Ele ressaltou que o BRICS representa “metade da população mundial e quase 30% do PIB global” e defendeu uma nova lógica de relações internacionais: “Cansamos de ser subordinados ao Norte. Queremos independência nas relações. Queremos fazer comércio com as moedas de cada país.”

OMC, chantagem política e a ameaça à soberania nacional

O governo brasileiro também avalia recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), apesar de reconhecer que o órgão tem sido sistematicamente boicotado pelos EUA. 

“Vamos esgotar todas as vias diplomáticas. Mas não aceitaremos que se misture comércio com chantagem política”, afirmou Lula.

A percepção no Palácio do Planalto é de que a carta de Trump tem forte motivação eleitoral. O gesto foi interpretado como tentativa de mobilizar sua base política interna nos EUA e, ao mesmo tempo, pressionar o sistema judiciário brasileiro. 

Auxiliares do presidente também apontaram a atuação coordenada de Eduardo Bolsonaro, que está em Washington articulando sanções contra o Brasil, como evidência de que o episódio ultrapassa a esfera comercial.

Vermelho

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