27-01-2023 Sexta-feira
Há 19 anos, um bebezinho chegou para inundar nossos corações de amor; nosso primeiro filho. Tal emoção só foi comparada com a do nascimento do irmão, 5 anos após. Nosso rapazinho, Davi Hermes, nosso pequeno guerreiro, de surpresa nos apresentou à trissomia do 21, a qual não tínhamos vivência nenhuma familiar ou de amigos, mas que só nos preencheu com uma única determinação: criá-lo de forma que ele se sentisse feliz e pleno, tendo consciência de sua condição genética, porém sem autopiedade e com coragem de enfrentar os desafios que a vida lhe traria.
Durante os anos da infância, comemoração de cada etapa: o levantar da cabeça, o girar o corpo, o sentar, o engatinhar, o levantar-se, o andar… todas regadas por muito amor e lágrimas minhas e de minha amada Kledma; mãe, sem palavras para descrever o tão guerreira e determinada pela felicidade dos filhos.
O início da escola, a alfabetização, o convívio fora de casa, seus primeiros aprendizados, suas apresentações nas datas festivas… Passa um filme na memória, com uma dorzinha de saudade da fase infantil de nosso menininho…
A chegada do irmão foi marcante da vida do Davi. Curtiu o crescimento da barriga da mãe, com muito amor e expectativa. Teria um irmão, o Lucas Hermes! Nunca se sentiu enciumado, teria o seu parceiro. Cresceram juntos, com muito amor e confusão, enfim , como irmãos que se complementam.
Desde cedo, Davi foi iniciado na prática esportiva com a natação para bebês. Esporte da família, também comemoramos os primeiros mergulhos, as braçadas iniciais, as primeiras voltas na piscina ainda na largura… os primeiros torneios escolares, nem se fala! Comecei a me perguntar então; haveria torneios específicos para as pessoas com Síndrome de Down?
Chegada da adolescência. Davi se percebendo diferente e não aceitando o afastamento da maioria dos colegas com quem convivia desde a infância. Cessaram os convites para festas…Doía calado em mim e na mãe este isolamento. Mesmo tendo a parceria da escola com palestras sobre inclusão, não conseguíamos avançar nesta integração. Em paralelo, crescia a complexidade das informações escolares. No ensino médio, finalmente surgiram poucas, porém puras e sinceras amizades.
Na adolescência, a natação cresceu em importância e seriedade em sua vida. Comprometimento, dedicação, esforço, disciplina nas rotinas da vida de atleta: treinos, dieta, sono… Jogos escolares estaduais e nacionais e as competições regionais e nacionais da classe especifica. O ápice desta fase de vida foi, incontestavelmente, as conquistas no Mundial do Canadá, em 2018, com duas medalhas de ouro e uma de bronze.
Com a maioridade, em 2022, concluiu a fase escolar. Manifestou o desejo de estudar Educação Física. Meu Deus, e agora? Tao poucos no Brasil conseguiram atingir o ensino universitário; aqui apenas um rapaz concluiu seu curso. Como seria tudo? Como ele se relacionaria num ambiente mais aberto que uma escola? Haveria adaptação / inclusão?
Apesar de todas essas dúvidas preenchendo nossas mentes e corações, apoiamos sua decisão. Davi foi aprovado no vestibular de uma universidade de São Luís (UNICEUMA) e no ENEM para um centro universitário de Minas Gerais. Começo de uma nova fase. Já cursou dois períodos, estando apaixonado pelo curso.
Já participou de Jogos universitários estadual e nacional, com vitórias. Também nova disputa de mundial, obtendo melhora de suas marcas e dois quartos lugares na categoria sênior. Ainda neste ano, foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Maranhão com a medalha de Honra ao Mérito Legislativo José Ribamar de Oliveira “Canhoteiro”.
Início de 2023. Quarta indicação para o Trofeu Mirante, sempre cercada de muita expectativa. Davi está novamente entre atletas de altíssimo nível, já fazendo parte deste seleto grupo de super-heróis do esporte. Ele curte se encontrar nestes eventos com estrelas que se tornaram amigos, como exemplo, Kadu Pakinha, Ribamar Galvão e Bruno Lobo. Ontem, ele se sentiu em êxtase ao subir ao palco do Teatro Arthur Azevedo para receber seu troféu.
Sentado estava eu, a distância, observando meu menininho que peguei em meus braços naquele 15 de maio de 2003, tão frágil e dependente, sendo aclamado como um dos super-heróis do esporte maranhense! Cheio de vigor, saudável, sociável e independente, enfim, um homem feliz e orgulhoso de seus feitos! O que virá pela frente, que seja feita a vontade de Deus. Mas saiba, meu filho, que sua família sempre estará ao seu lado e pronta para novos sorrisos e lágrimas em seus futuros desafios no esporte e na vida.
George Oliveira é médico Gastroenterologista e pai do Campeão Paraolímpico Mundial de Natação, Davi Hermes de Oliveira